É aquela que, depois de encarar um dia de trabalho estressante e uma rotina doméstica de tirar o fôlego, ainda arranja energia para contar uma historinha pra filha antes de dormir.
Quem nunca passou por isso: - Que massa! Agora vocês compraram um apê? Conseguiu um cantinho? Que dia vamos lá estrear? - Nãããããão, não tem nada lá em casa. Não está apropriado para te receber. Quantas vezes você já ouviu algo parecido com isso? Quantas vezes você disse ou pensou algo parecido com isso? E vou te falar, na maioria das vezes não é uma desculpa. De fato percebo que o ser humano realmente acredita que infraestrutura ou luxo importam. Eu mesmo já declinei de algumas oportunidades de receber grandes amigos e família na minha casa por acreditar que não tenho o espaço adequado, porque ainda não tinha uma mesa, que beltrano ou cicrano são finos demais para a nossa simplicidade, que não tenho a bebida adequada para oferecer. Pois sabe de uma coisa? Nada - repito e destaco - NADA disso importa. Basta puxar um pouco na memória. Lembre-se das viagens mais marcantes que você fez na sua vida. Lembre-se dos momentos mais deliciosos que passou. Aposto uma latinha gelada que as lembranças que mais fazem seu peito esquentar são aquelas repletas de pessoas que você ama. Te pergunto, nestas ocasiões você tinha muito dinheiro? Você estava em um ambiente luxuoso? Paradisíaco? Pode até ser... Mas garanto e, neste ponto, aposto mais que uma latinha gelada. Aposto uma caixa inteira. Um elemento sempre foi e sempre será comum às grandes lembranças: PESSOAS AMADAS. O que realmente importa é o encontro, é a boa prosa, o convívio com seres humanos que compartilham da mesma energia, independente do local, da ocasião e até mesmo das idéias. O bom encontro, a boa prosa, as boas experiências coletivas sempre tornarão o resto irrelevante. É por isso que quando você for convidado à minha casa, tomará assento em nosso lugar de honra:
Você se sentará em módicos banquinhos na nossa área de 8m2 onde a churrasqueira portátil disputa espaço com a máquina de lavar roupas e com o varal. Onde este que vos escreve passa boa parte do tempo criando e recriando.
É aqui que, independente da qualidade do cardápio disponível, independente da temperatura ou da posição da lua, teremos algumas boas horas de papo furado saudável e revigorante. Então meu querido amigo, minha querida amiga, quando me convidar para sua casa, não me receba na sua sala de estar. Me receba no seu lugar de honra. Ao lado da sua máquina de lavar, perto do fogão, no chão da varandinha, usando um banquinho de plástico como mesa. Nunca importou e nunca importará. O que vale é o encontro! Papai
Do nada, almoçando e discutindo alternativas para 2017 de maneira bastante positiva e animada com a mamãe, Fifia pergunta: - Papai, porque você estava triste com o trabalho outro dia? - Porque fui demitido, filha. Sabe o que é isso? - Não... - É assim, se imagine na sua Escolinha. É como se você chegasse um dia na aula e sua professora te dissesse para voltar para casa, pois você não poderia mais fazer parte da turma. É isso que aconteceu com o Papai. - Mas papai, porque sua professora fez isso? - Porque, por mais que tenha tentado, eu não consegui entregar o dever de casa do jeito que minha professora precisava. - Ahn, entendi. E porque você não está mais triste? - Porque estão surgindo algumas alternativas boas, filha. - Eba! Eu adoro quando você fica feliz!
Se a vida de repente te dá uma chacoalhada o que você faz? 1) Abaixa a cabeça, deita e chora; 2) Enfia a cara na cachaça; 3) Monta uma árvore de Natal com sua família.
A preparação começou na noite anterior, mas o temor começou uma semana antes, no consultório do pediatra.
Com muito carinho, explicamos para Sofia que no dia seguinte precisaríamos tirar uma formiguinha do seu braço, que seria rápido, que poderia doer um pouquinho. Mas no fundo sabíamos e nos envergonhávamos da mentira que estávamos contando para nossa filha e para nós mesmos. Nossos sorrisos forçados nos entregariam para um adulto, que perceberia nosso pavor, mas a inocência da doce criança a impediu de perceber nosso verdadeiro sentimento. Fomos dormir já preparando o espírito para a terrível sina que nos aguardava na manhã do dia seguinte. Quando os primeiros raios do alvorecer tocaram nossos já despertos e preocupados olhares matinais, mamãe e eu tentamos nos alimentar de coragem para o que viria em seguida, afinal nós perfuraríamos a pele da nossa cria, retiraríamos seu sangue ainda naquela manhã! Nos munimos de brinquedos, livrinhos de historinhas e especialmente muito carinho para amparar a pobre coitada da Sofia, que faria um impiedoso exame de sangue. Chegando nos portões das masmorras, mais conhecido como laboratório, nosso sangue congelou. Foi preciso um empurrão de coragem para dar mais um passo adentro. A mãe enfrentava os procedimentos de registro e senha, o pai tentava com todas as suas energias levar a atenção da criança para brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde e caça ao lobo mau. Após uma eternidade de espera veio enfim a chamada para a penitência: - SOFIA CARVALHO PEREIRA!
Sentamo-nos diante da câmara de tortura. Com uma agulha tão grande quanto uma cenoura nas mãos, a carrasca disse em tom enérgico: - COLOQUE SEU BRAÇO AQUI. E Sofia, na doce inocência que somente a infância pode proporcionar, cedeu. Já nós, apavorados e sem ter mais o que fazer, engolimos em seco e por alguns instantes percebemos nossos sistemas nervosos paralisarem cada um dos músculos do nosso corpo. Sem nenhuma piedade daquela inocente criança em sua frente, a torturadora rasgou seu braço com o gigante instrumento de tortura que chama de agulha. Resultado:
"Sofia Carvalho Pereira" A) Sofia Assoalho Asneira B) Sofia Baralho Bobeira C) Sofia Cascalho Coceira D) Sofia Dadario Doideira E) Sofia Errado Estribeira F) Sofia Farrapo Fuceira G) Sofia Galhardo Gameleira H) Sofia Horário Herdeira I) Sofia I... I... J) Sofia J... Joelheira K) Sofia K... K... L) Sofia Lesado Ladeira M) Sofia Molhado Mangueira N) Sofia N... N... O) Sofia Orvalho Olheira P) Sofia Paspalho Parreira Q) Sofia Quiabo Quituteira R) Sofia Riscado Roceira S) Sofia Safado Soleira T) Sofia Telhado Tintureira U) Sofia U... U... V) Sofia Vaiado Videira W) Sofia W... W... X) Sofia X... X... Y) Sofia Y... Y... Z) Sofia Z... Zoeira Papai
Aquele momento em que você percebe que a idade está chegando, que a sensação de sentar numa confortável cadeirinha balançando os pezinhos suspensos não passará de uma vaga lembrança dos remotos tempos de bebê. Que a realidade da vida não mais permitirá os passeios nas bicicletinhas das bonecas.
14/08 durante o dia: - Segundo a contagem da médica, a partir de amanhã e durante 30 dias ela pode nascer - disse a futura mamãe Catia empolgada. - E vocês já fizeram a bolsa? Nunca se sabe a hora o dia e a hora que ela vai resolver nascer... - alguém que não lembro quem deu a dica em tom de precaução. - Nããão, carece preocupar com isso ainda não - eu disse. - Vai nessa. Criança não escolhe a hora de nascer - a mamãe ponderou e emitiu a ordem direta. 14/08 por volta das 22:30: - Ufa, a sua bolsa e a bolsa da Fifia estão prontas, amor. Depois faço a minha, tô cansado - me urgulho do trabalho realizado. - Sei... 15/08 por volta das 03:00 da madruga, quando sindo um molhadinho esfriando as minhas costas: - Amooooooooor, acorda! - Hein?! - Acordaaaaaaaaaaaa. Minha bolsa estourou! - E o que é que tem? Amanhã a gente conserta. - Aff, a minha bolsa, dentro da minha barriga. Acorda que sua filha vai nascer! Então num pulo já vesti qualquer coisa, catei as bolsas e corri pro carro. Zarpamos para o hospital, ligamos para a médica e 50 mil amigos e familiares. Mal pisquei o olho e já estávamos na sala de cirurgia com uma baita duma platéia. Pisquei novamente e ela nasceu, toda serelepe, com pouco menos de 2,5 kg. Era o bebê com cara de joelho molhado mais lindo que eu já tinha visto. Pés do tamanho do meu mindinho e um baita dum pulmão cheio de energia! 15/08 por volta das 20:00: Depois de toda a correria e um dia inteiro pra lá e pra cá nos acomodamos no quarto. - Amor, cadê minha bolsa? - pergunto. - Hehehe, você não se lembra? Não disse que iria fazer a sua depois? - Ela me lembra... Então trajando apenas bermuda, chinelão e uma camiseta que vesti sem nem saber o que estava usando, corri para o shopping mais próximo e comprei 2 ou 3 peças de qualquer coisa. Engoli uma janta e na caminhada de volta para o hospital bateu a realidade. Nossas vidas nunca mais seriam as mesmas. Esta correria seria uma constante, mas a recompensa se mostraria diariamente em belíssimos sorrisos e lindos olhares inocentes que só ela poderia nos proporcionar. E a cada dia ela continua nos deixando sem fôlego, com suas doces Sofilezas. Minha linda Sofia, este blog é para você!